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Pequena história

A mensagem

Uma mensagem enviada para o número errado. Duas mulheres que nunca se conheceram. E palavras que chegaram tarde demais à pessoa a quem pertenciam.

Terminou. Foram os melhores meses da minha vida, mas terminaram.

Como é que ela estará?

«Vanessa, concentra-te.»

Levantei os olhos. À minha frente, o ecrã do computador mostrava um e-mail que já tinha lido três vezes sem perceber. Havia prazos para cumprir, pessoas a quem responder e uma tensão que se acumulava no meu corpo.

Todos os dias eram iguais, cheios e vazios ao mesmo tempo.

Quando chegava a casa, ainda dizia:

«Cheguei!»

Depois pousava a mala. Acendia a luz da cozinha. Ninguém respondia.

Olhava para o telemóvel como se a minha insistência pudesse fazer aparecer uma mensagem. Percorria as redes sociais à procura de uma fotografia, de um comentário, de qualquer coisa que me dissesse como estava.

Desapareceu.

Os meses passaram. Depois, os anos. Deixei de dizer «Cheguei!». Continuei a olhar para o telemóvel.

Numa manhã, recebi uma mensagem de voz de um número que não conhecia.

Fiquei com o dedo suspenso sobre a notificação. Podia ser publicidade. Podia ser alguém do trabalho que ainda não tinha guardado nos contactos.

Será ela?

Sentei-me antes de carregar no botão.

«Tenho escrito e apagado esta mensagem há dias. Não sei se vais querer ouvir-me, mas preciso de te pedir desculpa. Devia ter falado contigo. Fui cobarde. Deixei-te a tentar perceber sozinha uma decisão que tinha sido minha. Sei que um pedido de desculpa não resolve isso. Não queria que chegasse o dia de hoje sem te dizer isto. Tu merecias uma resposta. Perdoa-me. A tua Inês.»

Tua.

Inês.

A voz também não era a dela. Eu sabia. Ainda assim, voltei a ouvir.

Na segunda vez, fechei os olhos.

Na terceira, parei o áudio antes do nome.

Imaginei que aquelas palavras vinham da pessoa que tanto amei.

Amo.

Abri a conversa e comecei a escrever:

«Enganaste-te no número.»

O dedo ficou sobre o botão de enviar.

Havia tanta dor naquela voz. Talvez alguém estivesse, naquele momento, à espera de uma resposta.

Apaguei a frase.

Será que me cabia responder-lhe? A verdade é que queria voltar a ouvi-la. Queria que me enviasse outra mensagem.

Ganhei coragem.

«Olá, Inês. Lamento, mas enganaste-te no número.»

Carreguei em enviar e arrependi-me logo. Por instantes, desejei que ainda pudesse apagar a mensagem sem que ela a visse.

No topo da conversa apareceu a indicação de que estava a gravar um áudio.

«Que vergonha. Desculpa. Apaguei o contacto da Clara quando me fui embora. Achei que sabia o número de cor e devo ter trocado um algarismo. Que vergonha…»

Havia uma Clara pela qual a Inês estava a sofrer.

Como teria sido a história delas? Que decisão teria a Inês tomado para magoar tanto a Clara? Se as conhecesse, de que lado ficaria?

Escrevi:

«Espero que tu e a Clara encontrem o vosso final feliz.»

Não respondeu.

Fiquei com aquelas palavras durante o resto da manhã. Levei-as comigo para o almoço. Ouvi o primeiro áudio outra vez no carro, antes de entrar em casa.

Ao longo dos dias seguintes, imaginei Clara a recebê-lo. A hesitar. A responder. Inventei uma conversa difícil, um encontro, uma segunda oportunidade. Cheguei a pensar que o silêncio da Inês era um bom sinal.

Enquanto imaginava a história delas, passava algum tempo sem pensar na minha.

Nunca apaguei o áudio.

Passaram-se meses até voltar a ter notícias da Inês.

Estava em casa quando o telemóvel vibrou.

«Hoje voltei a ler aquilo que me escreveste sobre o nosso final feliz. É curioso. Nem sequer nos conheces.»

A voz saía arrastada. Repetia palavras, perdia o fio às frases. Pareceu-me que tinha bebido.

Os áudios continuavam a chegar.

«Gravei aquela mensagem na manhã em que ela foi operada. Quando me avisaste do engano, já tinha entrado. Enviei-lhe o áudio. Ficou por ouvir.»

Houve uma pausa.

«Morreu nessa noite.»

O telemóvel escorregou-me da mão e bateu na mesa.

«E eu ainda tenho a tua mensagem a desejar-nos um final feliz.»

Apanhei-o, mas não soube o que fazer com ele.

Abri o teclado. Escrevi «Não sabia». Fiquei a olhar para as duas palavras. Apaguei-as.

Voltei ao primeiro áudio.

Ouvi-o até ao fim.

Desta vez, deixei-a dizer o nome.

A tua Inês.

Pensei na mensagem enviada de novo, enquanto Clara estava no bloco operatório. Na Inês à espera de uma resposta. No momento em que essa espera tinha acabado.

Durante meses, tinha ouvido aquele pedido de desculpa com os olhos fechados, a tentar reconhecer outra pessoa. Agora, mantive-os abertos.

Comecei a escrever «Vai ficar tudo bem».

Apaguei também.

Não sabia o que lhe dizer. Não sabia nada sobre a Clara, nem sequer aquilo que a fazia rir. Inês tinha vivido uma história inteira com ela. Eu só tinha ouvido o fim.

Carreguei no botão de gravar. Soltei-o quase de imediato. Nunca lhe tinha enviado um áudio. De repente, senti vergonha da minha própria voz.

Tentei outra vez.

«Não sabia, Inês. Lamento muito.»

Parei, à procura de alguma coisa que pudesse acrescentar.

Do outro lado da parede, ouvi os vizinhos a rir. Na cozinha, o frigorífico começou a trabalhar. Continuei com o dedo sobre o botão.

«Não sei o que te dizer. Mas estou aqui, se quiseres falar.»

Enviei.

Não sabia se responderia.

Pousei o telemóvel ao meu lado e deixei o som ligado.

Meses depois, a resposta chegou.