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Pequena história · Romance & Suspense

A mota

Sofia só queria chegar a uma reunião. Depois apareceram uns olhos verdes, uma mota preta e uma porta que, aparentemente, não devia existir.

O dia não estava a correr bem. Tinha uma reunião com um arquiteto e estava atrasada.

O estacionamento naquela rua era um pesadelo, mas lá consegui encontrar um lugar. Apertado. Felizmente, o meu Fiat 500 cabia em quase todo o lado.

Peguei nas plantas e nos documentos espalhados pelo banco do passageiro. Ao sair, bati contra um peito e deixei cair tudo ao chão.

Um peito. Claro. Porque bater numa parede teria sido demasiado simples.

«Cuidado. Nunca olhas quando sais do carro?»

Baixei-me para apanhar os papéis. Nesse momento, as nossas mãos tocaram-se.

Levantei o olhar.

Olhos verdes. Uma boca que me fez demorar demasiado a desviar os meus. Um sorriso de quem já tinha percebido isso.

Engoli em seco.

Seria, provavelmente, o homem mais bonito que alguma vez tinha visto. E, a avaliar pela expressão, sabia-o perfeitamente.

«Tu é que estavas onde não era suposto.»

Ele entregou-me uma folha, ainda a sorrir.

«Posso mudar de sítio. Basta pedires.»

Arranquei-lhe os papéis da mão e saí dali a correr.

O arquiteto já me esperava. Pouco simpático, demasiado interessado no relógio.

O Rui abriu as plantas sobre a mesa e fomos fechando pormenores da casa que queria construir. Comprara um terreno com uma construção antiga. O projeto aproveitava parte das paredes existentes; o resto seria demolido.

«E esta porta?»

Mostrei-lhe uma fotografia da fachada. Havia uma porta azul, estreita, junto à entrada principal.

Ele olhou de relance.

«Está entaipada. Não há nada atrás.»

«Então porque não aparece na planta?»

«Sofia, estas casas têm dezenas de alterações que nunca ficaram registadas. Não vale a pena complicar.»

Dobrou a fotografia e passou ao orçamento.

Quando regressei ao carro, encontrei um papel debaixo do limpa-para-brisas.

Ótimo. Uma multa.

Mas o papel dizia:

«És desastrada. E extremamente sexy. Ficou uma folha comigo. Liga-me.»

Por baixo, um número.

Revirei os olhos.

Aquele homem era irritante. Lindo. Mas demasiado irritante para o meu gosto.

Contei os documentos à pressa. Tinha as plantas do projeto, o orçamento, a escritura. O resto eram cópias antigas.

Rasguei o papel.

Já no trânsito, reparei numa mota preta atrás de mim.

Primeiro, achei que era coincidência. Depois virei à direita, voltei a virar, e ela continuou ali.

O meu coração acelerou.

Entrei numa rua estreita e encostei junto ao passeio. Olhei pelo retrovisor.

Nada.

Peguei no telemóvel à procura do número do meu pai.

Um toque no vidro fez-me dar um salto.

O homem da mota estava ao lado do carro.

Como raio tinha chegado ali?

Destranquei a porta para lhe perguntar o que queria. Ele abriu-a antes de eu acabar o gesto.

Agarrei no spray de pimenta que guardava no compartimento da porta e apontei-lho.

Ele parou. Levantou as mãos e recuou.

«Certo. Estou a fazer isto muito mal.»

Aquela voz.

«Afasta-te.»

Deu mais um passo atrás. Só depois tirou o capacete.

Era ele.

«Tu és completamente doido?»

«Neste momento, compreendo a pergunta.»

Não sorri.

Ele também deixou de sorrir.

«Desculpa. Assustei-te.»

Ficou junto à mota, com a porta do meu carro livre. Tirou do blusão uma folha dobrada e estendeu-a, sem se aproximar.

«Ia devolver-te isto. Depois percebi o que era.»

Reconheci uma das plantas antigas que acompanhavam os documentos do terreno.

Saí do carro, ainda com o spray na mão.

«Podias ter escrito isso no papel.»

«Escrevi que tinha uma folha tua.»

«A parte do “extremamente sexy” tirou credibilidade ao resto.»

O sorriso regressou-lhe por um instante.

«A essa parte mantenho.»

A minha mão apertou o frasco.

Ele indicou o desenho.

«Sabes o que tem atrás desta porta?»

«Supostamente nada»

Encolhi os ombros.

«Foi o Rui que te disse isso?»

Fiquei imóvel.

«Como sabes que estive com o Rui?»

«O nome do gabinete está na pasta.»

Olhei para a capa, debaixo do meu braço.

«Conheces aquela casa?»

Ele baixou os olhos para a planta.

«Cresci lá.»

Abriu a folha sobre o capô e apontou para um corredor estreito, seguido de uma escada.

«Isto desapareceu do teu projeto.»

Comparei os desenhos.

Tinha razão.

«Pode ser uma alteração antiga.»

«Pode. Mas a porta ainda existe.»

«O Rui disse que estava entaipada.»

Ele ficou em silêncio tempo suficiente para eu sentir vontade de insistir.

«O teu arquiteto não te está a contar tudo.»

Olhei para ele, para a mota, para os papéis. De repente, o atraso da manhã parecia a parte menos importante daquele dia.

«E tu estás?»

Ele dobrou a folha.

«Ainda não.»

Devia ter entrado no carro.

Em vez disso, apontei para o café na esquina.

«Tens dez minutos.»

«Para explicar a casa ou convencer-te de que não sou completamente doido?»

«Começa pelo que conseguires.»

Sentámo-nos junto à janela. Fiz questão de ficar virada para a rua.

Ele percebeu. Não comentou.

«Gabriel», disse, pousando o capacete na cadeira ao lado.

«Sofia.»

«Eu sei.»

Levantei uma sobrancelha.

Ele apontou para os documentos.

«Também estava na pasta.»

Pedi um café. O Gabriel pediu água e afastou as plantas quando o empregado trouxe as chávenas.

Tinha mãos bonitas. Irritou-me reparar nisso.

Mostrou-me uma fotografia no telemóvel: um rapaz adolescente à porta daquela casa, ao lado de um homem com uma fita métrica ao pescoço.

A porta azul aparecia atrás deles.

Reconheci-lhe os olhos.

«O teu pai?»

Assentiu.

«Era arquiteto. Desenhou a casa. Aquela passagem dava para o gabinete dele.»

«E o Rui?»

Gabriel pousou o telemóvel.

«Trabalhámos juntos.»

«Não pareces gostar muito dele.»

«Não estamos aqui para falar de mim.»

«Estás a pedir-me que desconfie do homem a quem entreguei o projeto da minha casa. Acho que podemos falar um bocadinho de ti.»

Olhou para mim. Sem o sorriso, pareceu-me mais cansado.

«Tens razão.»

Não acrescentou nada.

Bebi um gole de café e queimei a língua.

Ele empurrou o copo de água na minha direção.

«Obrigada», murmurei.

O sorriso voltou devagar.

«Também te atrapalho sentada?»

«Estou a reconsiderar o spray.»

Desta vez, ri-me.

O Gabriel ficou a olhar para mim mais um segundo do que seria necessário.

Depois baixou os olhos para as plantas.

«Porque escolheste aquela casa?»

Falei-lhe das árvores, da luz, do espaço para uma mesa grande na cozinha. Da janela junto à qual queria beber café de manhã. Um jardim onde poderia meditar.

Ele ouviu sem me interromper.

«E aqui queria uma varanda», acrescentei, apontando.

Gabriel aproximou a folha. O seu braço encostou-se ao meu.

Deixei-o ficar.

«Apanhas o sol do fim da tarde deste lado.»

Pegou numa caneta e desenhou uma linha.

«Se alargares isto, consegues ver o jardim da cozinha.»

Inclinei-me para acompanhar o traço. Quando ele virou a cabeça, o rosto ficou tão perto do meu que me esqueci da pergunta que ia fazer.

O Gabriel olhou para a minha boca.

Esperei.

Ele voltou ao desenho.

Nunca uma linha numa folha me tinha parecido tão frustrante.

«Devíamos ir lá», disse.

«À casa?»

«Tens a chave?»

Assenti.

«Então vês por ti.»

Olhei para o relógio.

Os dez minutos tinham passado há muito.

Deixei o carro estacionado junto ao café. Gabriel tirou um segundo capacete da caixa da mota.

«Costumas recolher mulheres que te ameaçam com spray?»

«És a primeira.»

«Devia sentir-me especial?»

«Preferia que te sentisses segura.»

Disse-o sem sorrir.

Entregou-me o capacete e esperou que o colocasse. A fivela encravou-se nos meus dedos.

«Posso?»

Levantei o queixo.

Ele ajustou-a. Os nós dos dedos roçaram-me a pele por baixo da orelha e eu prendi a respiração.

Gabriel demorou um instante antes de retirar a mão.

«Assim.»

A voz saíra-lhe mais baixa.

Subi para a mota atrás dele.

«Onde me seguro?»

Virou ligeiramente a cabeça.

«Na minha cintura.»

Passei-lhe os braços à volta do corpo.

Senti-o inspirar.

Quando arrancou, apertei-o mais.

A meio do caminho, dei por mim a sorrir dentro do capacete.

A casa ficava no fim de uma estrada ladeada de árvores. O Gabriel desligou o motor diante do portão e ficou a olhar para a fachada.

Desci da mota e tirei o capacete. O Gabriel afastou-me do rosto uma madeixa que tinha ficado presa à boca.

«Deste por ti a sorrir?», perguntou.

«Por baixo disto, não viste nada.»

«Senti.»

Os dedos ficaram por um momento junto ao meu cabelo.

Depois afastou-se e esperou que eu abrisse o portão.

A chave resistiu. O Gabriel segurou a folha de metal enquanto eu tentava de novo.

Desta vez, cedeu.

Entrámos no jardim.

Mostrei-lhe onde queria a varanda. Ele colocou-se ao meu lado, olhando na mesma direção.

«A janela do café de manhã fica ali», disse, apontando para a parede da cozinha.

Lembrava-se.

Olhei para ele.

Gabriel tinha a mão pousada no tronco de uma árvore. Havia uma marca antiga na casca, à altura do seu ombro.

«O meu pai media-me aqui.»

Passou o polegar pela marca.

«Durante um verão inteiro, vinha confirmar se já tinha crescido.»

Aproximei-me. Pousei os dedos junto aos dele.

Gabriel virou a mão e tocou-me nas pontas dos dedos.

Podia tê-la retirado.

Entrelacei-os nos seus.

Ficámos assim por alguns segundos, diante de uma casa que eu mal conhecia e que ele parecia conhecer demasiado.

Quando avançámos para a entrada, não me largou a mão.

A porta azul estava fechada. A tinta tinha pequenas falhas junto à fechadura.

«Parece ter sido usada recentemente», murmurei.

Gabriel inclinou-se para observar.

Tirei as chaves do bolso, mas ele tocou-me no pulso.

«Espera.»

«Porquê?»

Não respondeu logo.

Puxei a mão para mim. Ele largou-a.

«Gabriel.»

Olhou-me nos olhos.

«Há coisas sobre esta casa que preciso de te contar antes de entrares.»

«Devias ter começado por aí.»

«Eu sei.»

Afastei-me um passo. O salto prendeu-se numa raiz e perdi o equilíbrio.

Gabriel segurou-me pela cintura.

A minha mão fechou-se no seu blusão.

Fiquei encostada a ele, demasiado consciente do calor sob o couro, da respiração que já não tinha o mesmo ritmo.

«Estás bem?»

Assenti.

Ele aliviou a mão na minha cintura.

Eu mantive a minha no blusão.

O olhar desceu-lhe outra vez até à minha boca.

«Ainda estou irritada contigo», disse.

«Tenho reparado.»

«E continuas sem me explicar tudo.»

«Também sei.»

Passei o polegar pela costura junto ao fecho.

Gabriel acompanhou o gesto com os olhos. Quando voltou a olhar para mim, o sorriso tinha desaparecido.

«Se te aproximas mais…»

«O quê?»

Não respondeu.

Inclinei-me. Ele ficou quieto até eu lhe tocar no rosto.

Só então se aproximou.

Senti a sua respiração nos lábios.

O telemóvel vibrou no meu bolso.

Fechei os olhos por um segundo.

Gabriel encostou a testa à minha e soltou uma pequena gargalhada, quase sem som.

«Podes atender.»

Afastou-se o suficiente para eu tirar o telemóvel.

Era uma mensagem do Rui.

«Se um homem chamado Gabriel te abordar, afasta-te.»

Li duas vezes.

Gabriel viu a alteração na minha expressão.

«Sofia?»

Mostrei-lhe o ecrã.

Ele ficou imóvel.

«Porque é que ele me está a avisar para me afastar de ti?»

Gabriel não respondeu.

«O que é que não me estás a contar?»

Gabriel olhou para a porta azul.

Só depois voltou a olhar para mim.

«O Rui é meu irmão.»

Olhei novamente para a porta azul.

«E foi ele que mandou fechar esta porta na noite em que o nosso pai morreu.»