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Entre páginas · Maria, ainda

O Domingo de Diana

Há um domingo de Diana que Maria nunca chegou a conhecer por inteiro. Esta é a história do que aconteceu antes de ela bater à sua porta.

Nota de conteúdo

Este texto aborda assédio, coerção e impacto emocional após uma situação de abuso de limites. Recomendado após a leitura de Maria, ainda.

Sábado

Não me apetecia absolutamente nada ir àquela festa.

Zero.

Na verdade, havia apenas um sítio onde me apetecia estar e envolvia um sofá, uma mulher demasiado bonita para o seu próprio bem e, com alguma sorte, a oportunidade de contar todas as sardas que ela tinha no rosto.

Com a boca.

Sorri sozinha.

Merda.

Estava mesmo perdida.

O telemóvel vibrou em cima da cama.

Catarina: Diana, fofa, estamos à tua espera. Ainda demoras?

Revirei os olhos.

“Fofa.”

A Catarina conhecia-me há quase dez anos e continuava a chamar-me fofa. Era uma prova maravilhosa de que algumas amizades sobreviviam apesar de tudo.

Olhei para as horas.

Estava quarenta minutos atrasada.

Tecnicamente, para os meus padrões, estava quase a chegar a horas.

Eu: Cinco minutos.

Uma pequena mentira.

Ainda estava de soutien e cuecas no meio do quarto, com metade do roupeiro espalhado em cima da cama e nenhuma vontade de vestir fosse o que fosse.

Puxei umas calças pretas de cintura subida.

Experimentei-as com um top acetinado.

Olhei para o espelho.

Quase.

Acrescentei um blazer preto, marquei os olhos e passei batom vermelho.

Muito melhor.

Elegante o suficiente para um aniversário.

Perigosa o suficiente para me divertir se o aniversário fosse uma seca.

Calcei uns saltos demasiado altos para alguém que pretendia beber champanhe e voltei a olhar para mim.

Ali estava ela.

Diana.

Versão socialmente aceitável.

Cabelo impecável. Olhos marcados. Boca vermelha. Brincos dourados. O meu perfume de sempre, o mesmo que tinha usado na noite anterior.

Perfume suficiente para anunciar a minha chegada dois segundos antes de eu entrar numa divisão.

Ninguém precisava de saber que, dez minutos antes, eu estivera sentada na cama a olhar para o telemóvel, a pensar se seria demasiado ridículo mandar uma mensagem à Maria apenas para lhe dizer que tinha saudades dela.

Vinte e quatro horas.

Nem isso.

Era há quanto tempo a tinha beijado?

Patético.

Peguei no casaco que tinha usado quando estivemos juntas.

Parei.

Ainda cheirava a ela.

Aproximei-o do rosto.

Era um cheiro suave, ligeiramente doce, quase morango. Ou talvez o meu cérebro tivesse decidido transformar a Maria numa sobremesa, o que, honestamente, também não me parecia totalmente errado.

Fechei os olhos durante dois segundos.

Dois.

Só dois.

Mulheres como eu tinham festas onde chegar atrasadas.

Peguei na prenda da Catarina e saí.

A festa era exatamente aquilo que eu esperava.

Uma casa demasiado grande para duas pessoas, algures entre o elegante e o ostensivo, dezenas de velas acesas, flores brancas por todo o lado e uma mesa cheia de comida que ninguém iria comer porque metade das mulheres presentes estava demasiado ocupada a fingir que não tinha fome.

Havia champanhe.

Muito champanhe.

Gostei imediatamente mais da festa.

Quando entrei, várias cabeças viraram-se.

Era sempre assim.

Não digo isto por vaidade.

Bem...

Talvez um pouco por vaidade.

Mas aprendi cedo que, se as pessoas vão olhar para nós, mais vale dar-lhes alguma coisa interessante para ver.

Abri o meu melhor sorriso.

Aquele que diz a minha vida é fabulosa, obrigada por perguntares.

Mesmo quando ninguém perguntou.

— Catarina, estás maravilhosa.

Entreguei-lhe a prenda e dei-lhe dois beijos.

Ela afastou-se apenas o suficiente para me observar.

— Diana... estás um arraso.

— Eu sei. Também fiquei emocionada quando me vi.

Ela riu-se.

Foi então que olhei por cima do ombro dela.

André.

Acompanhado por uma rapariga que eu não conhecia.

E, claro...

Diogo.

Porque aparentemente o universo tinha sentido que eu estava demasiado feliz ultimamente.

O André levantou o copo na minha direção.

Sorri-lhe.

O Diogo não se limitou a sorrir.

Olhou-me.

De cima a baixo.

Devagar.

Senti aquela pequena coisa desagradável no estômago que nos avisa de alguma coisa antes de o cérebro conseguir explicar o quê.

Ignorei.

Eu era excelente a ignorar coisas.

Especialmente homens.

— Estás linda, Diana.

— Obrigada, André.

— Eu não estava a falar por ele.

Diogo aproximou-se.

Claro que não.

— Isso é tudo para mim?

Olhei para mim.

Depois para ele.

— O quê? O blazer?

Ele sorriu.

Aquele sorriso.

O problema do Diogo era ter sido bonito a vida inteira. Há homens que passam demasiado tempo sem ninguém lhes explicar que ouvir “não” também faz parte da experiência humana.

— Sabes exatamente do que estou a falar.

Aproximei-me dele e baixei ligeiramente a voz.

— Diogo, quantas vezes tenho de te explicar que não há nada entre nós?

Ele inclinou-se na minha direção.

— Houve.

— Também houve uma pandemia. Não significa que eu queira repetir.

O André engasgou-se com a bebida.

Sorri.

— Vá, diverte-te. Há dezenas de mulheres giríssimas nesta festa. Certamente alguma ainda não te conhece suficientemente bem.

Passei por ele antes que pudesse responder.

Era assim que se fazia.

Atacar.

Sorrir.

Continuar.

Nunca dar tempo para perceberem onde dói.

Contra todas as expectativas, diverti-me.

Dancei com a Catarina.

Bebi mais do que devia.

Fiz amizade durante vinte minutos com uma rapariga chamada Carolina ou Carlota que tinha acabado uma relação de seis anos e estava naquela fase maravilhosa em que dizia a toda a gente que nunca mais queria homens enquanto verificava se um rapaz de camisa branca estava a olhar para ela.

Estava.

Informei-a.

Ela desapareceu cinco minutos depois.

Serviço público.

Entre músicas e conversas inúteis, pensei na Maria umas dezassete vezes.

Talvez vinte.

Principalmente quando tocavam músicas lentas.

E rápidas.

E quando bebia.

E quando não bebia.

Portanto, essencialmente, sempre.

Abri o WhatsApp.

A nossa conversa estava ali.

Escrevi:

Tenho saudades tuas.

Apaguei.

Guardei o telemóvel.

Dignidade, Diana.

Alguma.

Não precisava de ser muita.

Por volta das dez horas já tinha os pés a pedir misericórdia.

Subi até à casa de banho do piso de cima porque a de baixo parecia um congresso feminino sobre relações falhadas.

Fechei a porta.

Silêncio.

Finalmente.

Apoiei as mãos no lavatório e olhei para o espelho.

O batom continuava praticamente perfeito.

Podia estar emocionalmente a fazer escolhas questionáveis, mas a maquilhagem tinha princípios.

Molhei os pulsos.

Respirei.

E pensei nela outra vez.

Maria.

Na maneira como me olhava como se tentasse perceber-me.

Isso assustava-me.

A maioria das pessoas olhava para mim e via exatamente aquilo que eu lhes mostrava.

A Maria tinha aquele hábito irritante de procurar o que estava atrás.

Tirei o telemóvel da mala.

Talvez pudesse ir ter com ela.

Não.

Ridículo.

Tinha-a beijado na noite anterior e já estava a ponderar aparecer-lhe à porta porque tinha saudades.

Uma coisa muito equilibrada emocionalmente.

Sorri para mim mesma.

Foi então que a porta se abriu.

Virei-me.

Diogo.

O sorriso desapareceu.

— O que estás a fazer?

Ele fechou a porta atrás de si.

— A procurar-te.

— Que romântico. Agora encontraste-me. Podes ir embora.

Ele não se mexeu.

— Diana, vá lá.

Suspirei.

— Diogo...

— Tu desejas-me.

Fiquei alguns segundos em silêncio.

Depois ri-me.

Não consegui evitar.

— Meu Deus. Tu dizes mesmo estas coisas em voz alta?

Ele aproximou-se.

— Não brinques comigo.

— Não estou a brincar.

Mais um passo.

Eu deixei de sorrir.

— Diogo.

— Nós sabemos como isto acaba.

— Eu sei. Tu sais pela porta.

Tentei passar por ele.

A mão dele fechou-se no meu pulso.

Olhei para baixo.

Depois para ele.

— Larga-me.

— Diana...

— Larga.

Beijou-me o pescoço. Empurrei-o.

Voltou a puxar-me na sua direção.

O meu corpo bateu contra o seu.

— Estás bêbedo.

— E tu estás sempre a provocar.

Alguma coisa dentro de mim ficou completamente imóvel.

— Isso não significa nada.

Ele aproximou o rosto. Queria beijar-me na boca.

Virei a cara.

E os lábios dele acertaram-me junto ao maxilar.

Empurrei-o, novamente.

— Eu disse que não.

Ele agarrou-me novamente.

Desta vez com mais força.

O coração começou a bater demasiado depressa.

— Para.

— Não faças esse teatro comigo, Diana.

Teatro.

Não sei porquê, mas foi essa palavra.

Talvez porque eu tivesse passado a vida inteira a fazer exatamente aquilo.

O teatro.

A Diana divertida.

A Diana que flirtava.

A Diana que dizia coisas impróprias.

A Diana que beijava quem lhe apetecia.

A Diana que entrava numa sala e fazia toda a gente olhar.

Mas aquela Diana também podia dizer não.

— Larga-me.

A minha voz saiu diferente.

Baixa.

Sem graça.

Sem sorriso.

Sem personagem.

Ele percebeu.

Vi no rosto dele.

E mesmo assim demorou um segundo a mais a largar-me.

Talvez dois.

Foram suficientes.

Empurrei-o com toda a força.

— Não me voltes a tocar.

Ele soltou uma gargalhada curta.

— Meu Deus, Diana. Não aconteceu nada.

Fiquei a olhar para ele.

Nada.

Aquela palavra entrou-me pela pele.

— Sai.

— Estás a exagerar.

— Sai.

— Sempre foste assim. Adoras atenção e depois...

— SAI!

A minha própria voz assustou-me.

Ele ficou imóvel.

Depois endireitou a camisa.

Como se fosse ele quem precisava de recuperar alguma dignidade.

Antes de abrir a porta, olhou para mim.

— Não faças disto uma coisa que não foi.

A porta fechou-se.

Fiquei sozinha.

Olhei novamente para o espelho.

O batom vermelho estava esborratado num dos lados.

Passei o dedo.

Piorou.

Ri-me.

Não sei porquê.

Talvez porque era isso ou chorar.

Molhei uma toalha e passei-a pela pele.

Uma vez.

Duas.

Três.

Quando percebi o que estava a fazer, parei.

— Merda.

A minha voz tremeu.

Não.

Não íamos fazer aquilo.

Respirei.

Corrigi o cabelo.

Limpei o excesso de batom.

Passei corretor debaixo dos olhos.

Endireitei o top.

Puxei o blazer para o sítio.

Cinco minutos depois, parecia novamente eu.

Quase.

Desci.

A música continuava.

As pessoas continuavam a rir.

Alguém abriu outra garrafa.

Era extraordinário como o mundo tinha a capacidade de continuar normalmente quando o nosso tinha acabado de se deslocar dois centímetros para o lado.

Vi o Diogo junto ao bar.

A rir.

O André estava ao lado dele.

Por um segundo, pensei em atravessar a sala e contar-lhe.

O teu amigo acabou de...

De quê?

O que é que tinha acontecido?

Não aconteceu nada.

Foi o que ele disse.

Talvez tivesse razão.

Talvez eu estivesse a exagerar.

Talvez...

Não.

Parei.

Eu tinha dito não.

Era simples.

Tão simples.

Então porque é que me sentia culpada?

O André reparou em mim.

Franziu a testa.

Afastou-se do grupo e aproximou-se.

— Diana?

Sorri imediatamente.

Reflexo.

— André.

— Estás bem?

— Estou maravilhosa.

— Não pareces.

— Isso foi extremamente ofensivo. Passei quarenta minutos nesta maquilhagem.

Ele continuou a olhar para mim.

Merda.

O André conhecia-me há demasiado tempo.

— Aconteceu alguma coisa?

Olhei por cima do ombro dele.

Diogo observava-nos.

Peguei na mala.

— Estou cansada.

— Diana...

— Diz à Catarina que adorei a festa.

Saí sem me despedir.

Assim que a porta se fechou atrás de mim, o ar frio bateu-me no rosto.

Respirei.

Uma vez.

Duas.

Não chegou.

Comecei a andar.

Não sabia para onde.

Só precisava de me afastar daquela casa.

Dos risos.

Da música.

Dele.

Os saltos batiam no passeio com força, rápidos demais, como se o meu corpo tivesse decidido fugir antes de eu própria perceber que estava a fazê-lo.

Estás sempre a provocar.

Continuei.

Adoras atenção.

Mais uma rua.

Tu desejas-me.

Outra.

Não aconteceu nada.

Parei.

— PORRA.

Uma mulher que passava do outro lado da rua olhou para mim.

Ignorei-a.

Abrandei o passo.

O telemóvel vibrou dentro da carteira.

Não precisei de olhar para saber que podia ser o André.

Ou a Catarina.

Talvez até o Diogo.

A simples possibilidade fez-me apertar a carteira contra o corpo.

Não queria falar com ninguém.

Chamei um carro.

Durante a viagem, fiquei encostada à janela a observar as luzes do Porto passarem depressa demais. O motorista perguntou-me qualquer coisa sobre a música.

Não percebi.

— Desculpe?

— Se está tudo bem assim.

Olhei para ele.

— Sim.

A palavra saiu automática.

Claro que estava tudo bem.

Comigo estava sempre tudo bem.

Quando cheguei a casa, larguei a carteira no sofá.

Não acendi todas as luzes.

Apenas o candeeiro da sala.

A luz amarela iluminou o espaço de forma estranha, quase demasiado calma para aquilo que se passava dentro da minha cabeça.

Tirei os saltos.

Fiquei descalça no meio da sala.

E não soube o que fazer a seguir.

Normalmente sabia.

Chegava a casa, tirava a maquilhagem, pendurava a roupa, tomava banho.

Rotinas.

Pequenas coisas que diziam ao cérebro que um dia tinha terminado e outro começaria.

Naquela noite não consegui fazer nenhuma delas.

Fui até ao móvel das bebidas.

Whisky.

Não era propriamente a minha primeira escolha, mas também não me apetecia vinho, gin ou qualquer coisa que viesse acompanhada de gelo, rodelas de limão e decisões felizes.

Servi um pouco.

Bebi.

Ardeu.

Ótimo.

Talvez alguma coisa dentro de mim também pudesse arder até desaparecer.

Servi mais.

Sentei-me no chão, encostada ao sofá.

Olhei para o copo.

Provocadora.

Bebi.

Atiradiça.

Fechei os olhos.

Adoras atenção.

— Cala-te.

A minha voz ecoou pela sala vazia.

Abri os olhos.

Ninguém respondeu.

Claro.

Só eu.

Eu e aquela merda de voz dentro da cabeça.

Porque talvez...

Não.

Não ia fazer aquilo.

Mas o pensamento voltou.

Talvez tivesse sido demasiado simpática.

Talvez tivesse brincado demasiado com ele durante anos.

Talvez houvesse coisas entre nós que eu achava que estavam resolvidas e ele não.

Talvez aquela roupa...

Não.

Soltei uma gargalhada curta.

Excelente, Diana.

Agora também analisamos roupa como prova em tribunal.

Bebi outro gole.

Tinha-lhe dito que não.

Era só isso.

Não.

Uma palavra.

Uma sílaba.

Devia ser suficientemente simples.

Então porque é que o meu cérebro insistia em procurar argumentos contra mim?

Pousei o copo no chão.

Olhei para o pulso.

Não havia nada.

Nenhuma marca.

Passei-lhe os dedos por cima.

Nada.

E, mesmo assim, conseguia sentir perfeitamente a mão dele ali.

Fechei os olhos.

A casa de banho.

A porta.

O corpo dele demasiado perto.

A boca junto à minha pele.

Abri os olhos de imediato.

— Não aconteceu nada.

Desta vez fui eu que o disse.

As palavras soaram ainda pior na minha voz.

Nada.

O problema era esse.

Não tinha acontecido “nada”.

Não me tinha batido.

Não me tinha despido.

Não me tinha...

Parei.

Engoli em seco.

Então porque é que sentia que alguma coisa tinha sido arrancada de mim?

Peguei novamente no whisky.

As mãos tremiam.

— Ridículo.

Bebi.

Eu era a Diana.

Beijava quem queria.

Usava roupa que gostava.

Bebia.

Dançava.

Provocava.

Sim.

Provocava.

A palavra ficou suspensa.

Senti o estômago apertar.

Ser provocadora não era uma autorização.

Ter dormido com alguém no passado não era uma autorização.

Porra.

Até querer alguém ontem não significava querê-lo hoje.

Apoiei a cabeça no sofá.

Pensei na Maria.

Claro que pensei.

Parecia que ultimamente tudo acabava nela.

O sorriso dela no restaurante.

O cais.

As sardas.

A maneira nervosa como me tinha olhado antes de nos beijarmos.

Fiquei imóvel.

Havia qualquer coisa naquela memória que o meu cérebro tentava alcançar.

Maria tinha-se aproximado.

Mas tinha parado.

Apenas por um instante.

Tão pequeno que provavelmente nem ela se lembraria.

Eu lembrava.

Porque naquele espaço eu podia ter recuado.

Podia ter virado o rosto.

Podia ter dito não.

E ela teria parado.

Eu sabia.

Não sabia explicar como.

Simplesmente sabia.

Mas eu não tinha recuado.

Tinha ido ao encontro dela.

Eu queria aquele beijo.

A diferença era tão óbvia que quase me deu vontade de rir.

Em vez disso, comecei a chorar.

Silenciosamente primeiro.

Uma lágrima.

Depois outra.

Limpei-as com irritação.

Vieram mais.

Deixei.

Não houve elegância.

Nem drama bonito.

Nem sequer coragem suficiente para me levantar do chão.

Fiquei ali.

Com um copo de whisky ao lado.

De blazer.

Maquilhagem.

Batom já gasto.

E uma espécie de raiva pesada dentro do peito.

Não sei a que horas adormeci.

Talvez três.

Talvez cinco.

Lembro-me apenas de pensar que devia levantar-me.

Tirar a roupa.

Ir para a cama.

Não o fiz.

Adormeci ali mesmo.

No chão da sala.

Domingo

Acordei com o sol na cara.

Demorei alguns segundos a perceber onde estava.

Depois veio tudo.

De uma vez.

A casa de banho.

Diogo.

A mão.

A voz.

Não aconteceu nada.

Fechei novamente os olhos.

Não.

Ainda não.

Estiquei o braço à procura do telemóvel.

Estava debaixo do sofá.

Quando finalmente o encontrei, quase deixei cair.

14h37.

— Merda.

Tinha dormido praticamente o dia inteiro.

Doía-me o pescoço.

A boca estava seca.

A cabeça pesada.

Olhei para mim.

Continuava com as mesmas calças.

O top estava amarrotado.

O blazer tinha perdido completamente a batalha contra uma noite passada no chão.

Toquei-lhe.

Por um instante, pensei em tirá-lo.

Levantei-me.

Fui até ao quarto.

Parei diante da cama.

Podia despir-me.

Tomar banho.

Vestir outra coisa.

Pôr corretor.

Arranjar o cabelo.

Voltar a ser eu.

Levei a mão ao blazer.

Parei.

Não consegui.

Não sei explicar porquê.

Talvez porque despir aquela roupa significasse admitir que havia uma razão para querer tirá-la.

Que aquela noite tinha acontecido.

Que aquilo tinha sido real.

E eu ainda não estava preparada para transformar aquilo numa coisa real.

Afastei a mão.

— Depois.

Fui até à casa de banho.

Olhei para o espelho.

Péssima decisão.

Tinha os olhos inchados.

A pele pálida.

O cabelo ligeiramente desalinhado.

O pouco batom que sobrevivera à noite estava praticamente desaparecido.

Parecia cansada.

Não.

Parecia partida.

Desviei o olhar.

Molhei as mãos e passei-as pelo rosto.

Só isso.

Nada de banho.

Nada de maquilhagem.

Nada de perfume.

Não queria tocar mais em mim do que o necessário.

Voltei para a sala.

O copo de whisky continuava no chão.

Olhei para ele.

Depois para o telemóvel.

Dezassete notificações.

Ignorei todas.

Abri o WhatsApp.

André.

Catarina.

Mais nomes.

Deslizei.

Maria.

Fiquei imóvel.

A fotografia dela estava ali.

Sorri sem querer.

Quase nada.

Mas aconteceu.

Abri a conversa.

Escrevi:

Estás ocupada?

Apaguei.

Posso ver-te?

Apaguei.

Passei as mãos pelo rosto.

Isto era ridículo.

Eu sabia falar.

Era literalmente conhecida por nunca me calar.

Então porque é que não conseguia escrever uma merda de mensagem?

Talvez porque escrever tornasse tudo demasiado verdadeiro.

Talvez porque a Maria fosse fazer aquela coisa irritante que fazia sempre.

Olhar para mim.

E ver.

Escrevi novamente.

Preciso de companhia.

Apaguei.

Não.

Aquilo também era mentira.

Eu não precisava de companhia.

Podia ligar à Catarina.

A dezenas de pessoas.

Eu precisava dela.

Essa constatação assustou-me quase tanto como tudo o resto.

Olhei para a conversa durante muito tempo.

Depois deixei de pensar.

Maria… estás em casa? Preciso de ti.

O dedo ficou suspenso sobre o botão.

Não.

Sim.

Merda.

Enviar.

Assim que a mensagem desapareceu para o outro lado, arrependi-me.

— Idiota.

Podia apagar.

Não.

Já estava.

Fiquei com o telemóvel nas mãos.

A resposta chegou depressa.

Vem e uma morada.

Só isso.

Nenhuma pergunta.

Nenhum “o que aconteceu?”.

Vem.

Senti os olhos arderem novamente.

— Não.

Apontei um dedo ao vazio como se estivesse a discutir comigo própria.

— Não vais começar outra vez.

Levantei-me.

Peguei na carteira.

Calcei os mesmos saltos.

Olhei por uma última vez para o espelho da entrada.

Devia trocar de roupa.

Não troquei.

Saí.

Durante o caminho até casa da Maria, quase pedi para voltar para trás três vezes.

Na quarta, já estávamos demasiado perto.

Fiquei a olhar pela janela.

As pessoas andavam na rua.

Casais.

Famílias.

Um homem passeava um cão minúsculo com um casaco amarelo.

O mundo continuava.

Era ofensivo.

Como é que tudo podia continuar exatamente igual?

O carro parou.

— Chegámos.

Olhei para a casa.

Merda.

— Obrigada.

Saí.

Fiquei alguns segundos parada no passeio.

Apertei a carteira contra o corpo.

Podia ir embora.

Mandava uma mensagem.

Desculpa. Mudança de planos.

Ou:

Já estou melhor.

Essa era boa.

Clássica Diana.

Já estou melhor.

Mesmo quando não estava.

Principalmente quando não estava.

Toquei à campainha.

Imediatamente quis fugir.

Tarde demais.

Ouvi movimento do outro lado.

A porta abriu.

Maria.

O cabelo escovado.

Roupa lavada.

Um perfume suave.

Tão Maria que quase me desfez ali mesmo.

Ela olhou para mim.

Primeiro para os olhos.

Depois para o rosto.

O cabelo.

Os lábios.

E eu percebi.

Ela estava a ver.

Não sabia o quê.

Mas estava a ver.

— Diana… — murmurou, alarmada. — O que aconteceu?

Abri a boca.

Nada.

Procurei instintivamente uma piada.

Qualquer uma.

Uma coisa parva sobre ressacas.

Sobre festas.

Sobre parecer uma vítima de uma semana da moda que correu mal.

Nada apareceu.

— Não quero falar sobre isso. Posso… só ficar aqui contigo?

Mal reconheci a minha voz.

A Maria não hesitou.

— Claro. Entra.

Entrei.

Larguei a carteira no chão.

Durante uma fração de segundo fiquei simplesmente parada diante dela.

Depois deixei de tentar.

Abandonei tudo.

A pose.

A piada.

A Diana que tinha resposta para tudo.

E abracei-a.

Com tanta força que senti o corpo dela oscilar contra o meu.

Não queria que me perguntasse nada.

Não queria explicar.

Não queria dar um nome àquilo.

Só queria ficar ali.

Com alguém que sabia parar.

Com alguém junto de quem o meu corpo não precisava de estar preparado para fugir.

E, pela primeira vez desde a noite anterior, deixei-me acreditar que estava segura.