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Dá-me 3 palavras

A voz entre as folhas

Uma história sobre aquilo que a saudade cala e aquilo que a música consegue devolver.

Esta história nasceu de um desafio.

Na minha rubrica do Instagram, “Dá-me 3 palavras e eu devolvo-te uma história”, deram-me três palavras: folhas, gratidão e conforto. Esta foi a história que nasceu delas.

As folhas colavam-se às minhas sapatilhas como se também elas quisessem entrar na igreja.

Amarelas, castanhas, algumas ainda com restos de verde, cobriam quase todo o adro e estalavam debaixo dos pés de quem chegava para a missa das onze. Tinha chovido durante a noite e o ar cheirava a terra molhada, frio e outono.

Normalmente, gostava daquele cheiro.

Naquela manhã, só me apetecia vomitar.

Apertei o livro de cânticos contra o peito e subi os três degraus da entrada. A madeira pesada da porta gemeu quando a empurrei. Lá dentro estava mais quente. O cheiro a cera das velas misturava-se com o perfume das senhoras que já ocupavam os primeiros bancos e com aquele aroma antigo da madeira que eu nunca conseguia explicar.

Era o cheiro da igreja.

O cheiro dos meus domingos.

O cheiro da minha avó.

Engoli em seco e caminhei rapidamente até às escadas estreitas que davam acesso ao coro.

— Sofia!

Fechei os olhos durante um segundo.

Quando alguém diz o nosso nome daquela maneira, demasiado alegre para as dez e meia de um domingo, nunca vem coisa boa.

Virei-me.

A Teresa aproximava-se com uma pasta azul apertada contra o peito e aquele sorriso que usava sempre que estava prestes a pedir alguma coisa a alguém.

— Bom dia.

— Bom dia, querida. Ainda bem que chegaste cedo.

Péssimo início.

— Aconteceu alguma coisa?

Ela suspirou.

— A Joana está doente.

Olhei para ela.

Depois para o lugar vazio onde a Joana costumava pousar a mala.

Depois novamente para ela. Inesperadamente, comecei a ficar nervosa. Não sabia porquê.

— Coitada – foi o que consegui dizer, num sussurro.

A Teresa continuou a olhar para mim.

— Espero que melhore – acrescentei.

Continuou a olhar. E os nervos aumentavam.

— Muito.

— Sofia.

— Teresa.

Ela riu-se.

Eu não.

— Preciso que faças a parte dela hoje.

O meu estômago caiu algures entre os pés e o chão de madeira.

— Não, eu não consigo.

A resposta saiu tão depressa que nem tive tempo de pensar.

— Nem sequer sabes qual é a parte.

— Sei, sim.

Toda a gente sabia.

A Joana fazia o solo antes do último refrão. Sozinha. Em frente a um microfone. Com a igreja inteira a ouvi-la respirar, engolir, desafinar, esquecer-se da letra ou morrer.

Qualquer uma das hipóteses me parecia possível.

— Sofia, conheces a música.

— Conheço.

— Tens uma voz lindíssima.

— Obrigada.

— Então?

— Então nada.

Ela pousou a pasta em cima de uma cadeira.

— Cantas connosco há seis meses.

— Exatamente. Connosco. Essa é a parte importante da frase.

A Teresa tentou esconder um sorriso.

Eu gostava dela, mas naquele momento estava seriamente a reconsiderar.

— Ficas sempre na segunda fila.

— É um bom sítio.

— E quase nunca chegas perto do microfone.

— Também é uma excelente decisão.

— Sofia.

Suspirei.

Sabia o que vinha a seguir.

O discurso sobre coragem. Sobre talento. Sobre como eu não podia passar a vida inteira escondida atrás das outras pessoas.

Já o tinha ouvido da minha mãe.

Da minha professora de música.

Da minha avó.

Sobretudo da minha avó. A minha doce avó.

Mas a Teresa não disse nada disso.

Apenas se aproximou e pousou uma mão no meu ombro.

— Eu não te obrigaria se não soubesse que consegues.

E afastou-se.

Isso foi pior.

Fiquei sozinha no meio do coro, com o livro apertado contra o peito e vontade de fugir pela mesma porta por onde tinha entrado.

Sabia cantar.

Esse nunca tinha sido o problema.

Cantava desde que me lembrava de existir. Primeiro nas viagens de carro, quando a minha avó me ensinava músicas antigas e eu inventava palavras quando não sabia a letra. Depois enquanto ela cozinhava e eu ficava sentada em cima da bancada, com as pernas a balançar, transformando colheres de pau em microfones.

Mais tarde vieram as aulas.

A minha avó costumava dizer que eu tinha uma voz demasiado grande para alguém que tentava ocupar tão pouco espaço.

Na altura irritava-me.

Agora dava tudo para a ouvir dizer aquilo outra vez.

Sentei-me num dos bancos do coro e abri o livro.

Não era realmente meu.

Tinha sido dela.

A capa castanha estava gasta nos cantos e algumas páginas tinham pequenas anotações a lápis. Respira aqui. Mais devagar. Não correr nesta parte.

A letra dela era inclinada para a direita, como se estivesse sempre com pressa de chegar à palavra seguinte.

Passei o polegar sobre uma das notas.

Já tinha passado quase um ano.

Onze meses e dezasseis dias, se quisesse ser precisa.

Não queria.

Nos primeiros meses depois de ela morrer, deixei de cantar.

A minha mãe dizia que eu precisava de tempo. O padre João dizia que o luto não tinha calendário. As pessoas diziam muitas coisas quando não sabiam o que dizer.

Eu só sabia que a minha voz desaparecera com ela.

Continuava a ir à missa porque era o que sempre tínhamos feito. Sentava-me ao lado da minha mãe, no mesmo banco, e ouvia os outros cantar.

Às vezes mexia os lábios.

Som, nenhum.

Até que, numa manhã de abril, a Teresa se sentou ao meu lado no final da celebração.

Não perguntou se eu estava bem.

Não me disse que a minha avó estaria num lugar melhor.

Só disse:

— Quando quiseres voltar a cantar, temos um lugar para ti.

Duas semanas depois, apareci num ensaio.

Segunda fila.

Atrás da Marta.

Longe do microfone.

O acordo funcionava perfeitamente.

Até aquela manhã.

Passei algumas páginas à procura do cântico que iríamos cantar.

Quando o encontrei, alguma coisa caiu para o chão.

Baixei-me.

Era uma folha.

Pequena, seca, de um amarelo já quase castanho. Estava completamente achatada e uma das pontas tinha-se partido com a queda.

Fiquei a olhar para ela.

Não me lembrava de a ter visto antes.

Peguei-lhe com cuidado e virei-a entre os dedos.

Podia ter sido colocada ali pela minha avó. Podia estar naquele livro há anos. Podia ter caído para dentro da minha mochila no domingo anterior.

Provavelmente tinha uma explicação perfeitamente banal.

Mesmo assim, sorri.

A minha avó fazia isso.

Apanhava coisas.

Folhas bonitas. Flores minúsculas. Pedrinhas da praia. Bilhetes de cinema. Guardanapos onde alguém tinha escrito qualquer coisa importante.

Dizia que havia dias que mereciam ser guardados.

Olhei para a folha mais uma vez.

— Estás aí?

A voz da minha mãe fez-me levantar a cabeça.

Estava no fundo das escadas do coro.

— Estou.

— Está tudo bem?

Pensei em dizer que sim.

Era sempre a resposta mais fácil.

Mas talvez naquela manhã estivesse cansada de escolher sempre o mais fácil.

— A Joana faltou.

— Ah.

— Querem que faça o solo.

Os olhos da minha mãe iluminaram-se.

— Sofia!

— Não faças essa cara.

Ela tentou imediatamente tornar-se séria.

Falhou.

— Que cara?

— A cara de mãe emocionada que já está mentalmente a fazer um vídeo.

— Eu nunca faria isso.

— Mãe.

— Está bem. Talvez fizesse.

Revirei os olhos.

Ela começou a subir as escadas.

— Vais fazê-lo?

Olhei para a folha que ainda segurava.

— Não sei.

A minha mãe parou dois degraus abaixo de mim.

— Tens medo?

Assenti.

Ela não me disse que não havia razão para ter medo.

Essa era uma das coisas que mais gostava nela.

Nunca me tentava convencer de que aquilo que eu sentia não fazia sentido.

— A avó ia dizer para fazeres na mesma.

— Eu sei.

— E depois ia dizer que, se desafinasses, provavelmente ninguém reparava porque metade das pessoas cá em baixo também desafina.

Ri-me.

— Isso também parece muito ela.

A minha mãe sorriu.

Ficámos alguns segundos em silêncio.

Olhei novamente para o livro.

Para a letra da minha avó.

Para a folha entre os meus dedos.

E, de repente, percebi que passara quase um ano inteiro a entrar naquela igreja e a pensar apenas no que tinha perdido.

Na cadeira vazia ao meu lado.

Na voz que já não ouvia.

Na pessoa que queria de volta.

Nunca pensava naquilo que tinha ficado.

Na minha mãe.

Na música.

Naquele livro.

Nas tardes em que cantámos juntas.

Nos dezasseis anos em que tive a sorte de lhe chamar avó.

Senti um aperto no peito, mas desta vez não era só tristeza.

Havia outra coisa misturada.

Gratidão.

Uma gratidão estranha, dolorosa, daquelas que nos fazem querer chorar e sorrir ao mesmo tempo.

— Vou tentar.

A minha mãe sorriu.

— Está bem.

— Só isso?

— O quê?

— Não vais dizer que estás orgulhosa ou fazer um discurso?

Ela encolheu os ombros.

— Posso esperar até ao fim. Assim vejo se corres dali para fora antes de cantar.

Atirei-lhe um olhar indignado.

Ela riu-se e desceu as escadas.

O ensaio passou demasiado depressa.

Quando dei por mim, os bancos estavam cheios e o murmúrio das pessoas ia desaparecendo.

A Teresa fez-nos sinal.

A missa começou.

Tentei não olhar para o microfone.

O microfone, infelizmente, continuava lá.

Cantámos o primeiro cântico.

Depois outro.

A minha voz saía normalmente quando estava escondida entre as outras.

Quando chegou o momento que eu temia, senti as mãos começarem a tremer.

A Marta percebeu.

— Respira — sussurrou.

Soltei um pequeno suspiro, como se tivesse estado a suster a respiração até àquele momento.

A Teresa fez-me sinal.

Saí da segunda fila.

Cada passo até ao microfone pareceu durar uma eternidade.

Olhei para baixo.

Péssima ideia.

Conseguia ver quase todas as pessoas.

A minha mãe estava três filas atrás.

Sorriu.

Desviei imediatamente os olhos.

A introdução começou.

Sabia a entrada.

Tinha-a ouvido dezenas de vezes.

Uma.

Duas.

Três.

Abri a boca.

A primeira nota tremeu.

Ouvi.

Toda a gente ouviu.

O pânico atravessou-me.

Durante uma fração de segundo pensei em parar.

Depois ouvi a voz da Marta, muito baixinho, atrás de mim.

Não estava a cantar a minha parte.

Estava apenas a dar-me a nota.

Respirei.

Continuei.

A segunda frase saiu melhor.

Na terceira, deixei de olhar para as pessoas.

Na quarta, deixei de pensar na minha voz.

E algures entre uma palavra e outra aconteceu uma coisa estranha.

Comecei simplesmente a cantar.

Não para provar que conseguia.

Não para a Teresa.

Não para a minha mãe.

Nem sequer para a minha avó.

Cantei porque gostava.

Porque aquele som ainda era meu.

Quando as restantes vozes entraram atrás de mim, senti qualquer coisa abrir-se no peito.

Não estava sozinha.

Nunca tinha estado.

A última nota desapareceu lentamente pelo teto alto da igreja.

Voltei para o meu lugar com as pernas a tremer.

A Marta apertou-me a mão.

— Vês?

Não respondi.

Se abrisse a boca, provavelmente chorava.

No final da missa, fugi para junto da minha mãe antes que alguém pudesse falar comigo.

— Nem penses — avisei assim que vi o telemóvel na mão dela.

— Não gravei nada.

— Mãe.

— Gravei só um bocadinho.

Suspirei.

Ela abraçou-me.

Desta vez deixei.

— A avó teria adorado — disse baixinho.

Fechei os olhos. Sentia o meu coração cheio, como se ela estivesse ali comigo.

— Eu sei.

Quando nos afastámos, reparei numa senhora parada ao nosso lado.

Conhecia-a de vista. Sentava-se quase sempre perto da frente. Devia ter a idade da minha avó e usava sempre um casaco comprido, mesmo quando não estava assim tanto frio.

— Desculpa interromper.

— Não faz mal — respondi.

Ela olhou para mim.

Tinha os olhos húmidos.

— Foste tu que cantaste aquela parte sozinha?

Fiquei imediatamente nervosa.

— Sim.

Ela segurou-me na mão.

— Obrigada.

Fiquei sem saber o que responder.

— O meu marido morreu há dois meses — continuou. — Hoje foi a primeira vez que consegui voltar aqui sozinha.

O sorriso dela tremeu.

— Não sei explicar. A tua voz trouxe-me algum conforto.

Senti o peito apertar.

Passei a manhã inteira preocupada com aquilo que as pessoas poderiam pensar de mim.

Se iria desafinar.

Se reparariam que estava nervosa.

Se seria suficientemente boa.

Nunca me tinha ocorrido que alguém pudesse precisar de me ouvir.

Apertei-lhe a mão.

— Obrigada por me dizer isso.

Ela sorriu e afastou-se lentamente.

Fiquei a vê-la sair pela porta da igreja.

A minha mãe estava em silêncio ao meu lado.

— Não digas nada — avisei.

— Nem ia.

— Estás a chorar.

— Está vento.

— Estamos dentro da igreja.

— Sofia, não estragues o momento.

Comecei a rir.

Saímos juntas.

O frio bateu-me imediatamente na cara e enfiei as mãos nos bolsos do casaco. O adro continuava coberto de folhas.

A minha mãe começou a caminhar em direção ao carro.

Eu fiquei para trás.

— Sofia?

Baixei-me e apanhei uma folha do chão.

Era vermelha, quase perfeita, com pequenas manchas douradas junto às pontas.

— O que estás a fazer?

Sorri.

— Nada.

Abri o livro de cânticos e coloquei-a cuidadosamente entre duas páginas, ao lado da folha antiga.

A minha mãe percebeu.

Não disse nada.

Fechei o livro e apertei-o contra o peito.

— Então? Sobreviveste?

Olhei para a igreja uma última vez.

Depois para as folhas que o vento começava a levantar à nossa volta.

Sorri.

— Acho que até gostei.

E, pela primeira vez em quase um ano, enquanto caminhávamos até ao carro, dei por mim a cantarolar.