O Universo não sabe pilotar
Uma história sobre aquilo que não conseguimos controlar e as pessoas que encontramos quando a vida nos obriga a mudar de rota.
Na minha rubrica do Instagram, “Dá-me 3 palavras e eu devolvo-te uma história”, deram-me três palavras: saúde, universo e avião. Esta foi a história que nasceu delas.
Aos trinta e cinco anos, eu tinha um plano.
Não era um plano escrito, porque nunca fui esse tipo de pessoa, mas sabia mais ou menos como as coisas iam acontecer. Comandante antes dos quarenta. Apartamento pago antes dos cinquenta. Reforma suficientemente cedo para ainda conseguir viajar sem me queixar das costas.
O resto logo se via.
Casamento não fazia parte do plano. Filhos também não.
Voava há mais de dez anos e gostava daquilo porque, ao contrário das pessoas, o avião fazia normalmente o que lhe mandava. Havia procedimentos para tudo: falha de motor, despressurização, turbulência, tempestades. Se alguma coisa corria mal, pegávamos numa checklist e resolvíamos.
Era simples.
Viajava, ganhava bem e tinha um apartamento em Lisboa onde passava muito menos tempo do que justificava a prestação. Gostava de bons restaurantes, carros rápidos e pessoas bonitas. Não necessariamente por esta ordem.
E o uniforme ajudava.
Muito.
Podia fingir modéstia, mas não valia a pena. Eu sabia o efeito que fazia.
Foi por isso que, quando apareceu um caroço junto à clavícula, decidi que não existia.
Funcionou durante quase três semanas.
Estava cansado? Fazia voos longos.
Tinha perdido peso? Andava a correr.
Acordava transpirado? Era agosto.
O caroço continuava lá? Não lhe tocava.
Problema resolvido.
Até ao exame médico periódico.
O médico apalpou-me o pescoço, parou e voltou atrás.
— Há quanto tempo tens isto?
— Isso o quê?
Olhou para mim.
— Gustavo.
— Duas semanas. Talvez três.
Vieram análises. Depois uma ecografia. Uma TAC. Uma biópsia.
Comecei a perceber que já não estávamos a falar de uma inflamação qualquer quando deixaram de dizer “vamos só confirmar”.
A consulta em que recebi o diagnóstico durou talvez meia hora. Só me lembro de duas frases.
A primeira foi:
— É um linfoma de Hodgkin.
A segunda fui eu que disse.
— Quanto tempo fico sem voar?
O médico pousou a caneta.
— Gustavo, a tua saúde está primeiro…
— Três meses? Seis?
— Não te consigo dizer quando poderás voltar a voar.
Aquilo irritou-me.
— Mas há uma previsão.
— Não.
— Uma média.
— Cada caso…
— Eu não perguntei isso.
A minha voz subiu ligeiramente. Ele não reagiu.
— Neste momento, não estás apto para voar. Vamos concentrar-nos numa coisa de cada vez.
Uma coisa de cada vez.
Detestei aquela frase durante meses.
Saí do hospital, entrei no carro e fiquei quase uma hora sem ligar o motor. Tinha três chamadas da minha mãe, uma mensagem do meu pai e duas do trabalho.
Liguei ao meu chefe primeiro.
Na altura pareceu-me lógico.
…
A primeira sessão de quimioterapia foi numa terça-feira.
Às oito e dez estava sentado. Às oito e treze já queria ir embora.
Não gostava do cheiro, das luzes, das cadeiras, das pessoas a perguntarem constantemente se estava confortável.
Não estava.
Tinha levado os auriculares e um livro que não li. Estava a tentar perceber quanto tempo faltava quando ouvi uma guitarra.
Uma guitarra.
Levantei os olhos.
Um homem tinha acabado de entrar. Devia ter pouco mais de trinta anos. Cabelo aos caracóis, barba curta, sapatilhas brancas. Na t-shirt lia-se:
HOJE VAI CORRER MAIS OU MENOS. E ESTÁ TUDO BEM.
Olhei duas vezes.
Era mesmo aquilo.
— Dona Celeste!
Uma senhora duas cadeiras à minha frente levantou a cabeça.
— Nem penses em tocar aquela do Roberto Carlos.
— Bom dia, também para si.
Ela riu-se.
Aquilo irritou-me. Não a senhora. Ele.
Parecia-me indecente estar tão contente num sítio daqueles.
Coloquei os auriculares.
Cinco minutos depois, alguém me tocou no braço.
Era ele.
— Aceito pedidos.
— Silêncio.
Fez uma pausa.
— Não conheço. É portuguesa?
— Estou a pedir-te para não tocares.
— Ah. Essa conheço. Mas só sei a versão instrumental.
A Dona Celeste riu outra vez.
— És sempre assim?
— Quase sempre.
— Deve ser cansativo.
— Para os outros, principalmente.
Estendeu a mão.
— Mauro.
— Gustavo.
— Eu sei.
— Como?
Apontou para a pulseira no meu pulso.
— Calma, não sou vidente.
Voltei a colocar o auricular.
Decidi naquele momento que não gostava dele.
…
Na semana seguinte estava lá outra vez.
— Bom dia, comandante.
— Não me chames comandante.
— Porquê?
— Porque não estou a trabalhar.
Puxou uma cadeira.
— Deixaste de ser piloto?
— Temporariamente.
— Portanto, és piloto.
— Não funciona assim.
— Já estiveste no Japão?
— Sim.
— Islândia?
— Sim.
— Amadora?
Fiquei a olhar para ele.
— Já fui à Amadora.
— Quando?
— Não faço ideia.
— Portanto não conta.
— Como é que visitar a Islândia conta e a Amadora exige documentação?
— São regras internacionais.
Soltei uma gargalhada curta.
Mauro apontou para mim.
— Olha. Afinal tens dentes.
— Vai tocar a guitarra.
Revirei os olhos.
Mas nesse dia não coloquei os auriculares.
…
O tratamento começou a notar-se depressa.
Perdi peso. Perdi força. Perdi cabelo.
A paciência já tinha pouca, portanto essa não contou.
Quando o cabelo começou a cair a sério, rapei-o sozinho em casa. Passei a mão pela cabeça e pensei:
Pareço um ovo.
Na terça seguinte levei um boné.
Mauro viu-me entrar e, pela primeira vez, não fez uma piada.
Não gostei.
— Tudo bem? — perguntou.
— Sim.
— Está bem.
— Só isso?
— Disseste que estava tudo bem.
— E acreditaste?
— Não.
Tirei o boné.
— Podes olhar. Eu sei que está horrível.
Mauro inclinou a cabeça.
— Não está.
— Mauro.
— Está diferente.
— Pareço uma lâmpada.
— Uma lâmpada bastante atraente.
Olhei para ele.
— Tu tens algum problema sério.
— Vários.
Acabei por rir.
Ele não voltou a falar do cabelo.
Agradeci-lhe por isso.
Não em voz alta, obviamente.
O tratamento foi tirando mais do que cabelo. Havia dias em que subir as escadas me deixava sem fôlego.
Não contava isso a ninguém.
…
Numa terça-feira, o Mauro não apareceu.
Às nove pensei que estava atrasado. Às dez perguntei à enfermeira:
— O Mauro não vem?
Ela fez um sorriso de que não gostei.
— Quem?
— Tu sabes de quem falo.
— Está constipado. Não pode vir.
— Certo.
— Queres o contacto dele?
— Não.
Dois minutos depois, pousou um papel ao meu lado.
— Caiu-me.
Olhei para o número.
— Isto é pouco profissional.
— Faz queixa.
Fiz um pequeno sorriso e esperei até chegar a casa.
A Patrícia obrigou-me a perguntar se ainda estás vivo.
A resposta chegou quase imediatamente.
MENTIROSO. PERGUNTASTE POR MIM.
Estás com febre. Não estás em condições de avaliar factos.
Tiveste saudades.
Não exageres.
A sala estava demasiado silenciosa?
Escrevi. Apaguei. Voltei a escrever.
Um bocado.
A conversa continuou e, quando dei por mim, estava a sorrir para o telemóvel.
Foi aí que percebi que tinha um problema.
Não o linfoma.
Outro. Que incluía o coração.
…
Algumas semanas depois tive uma sessão particularmente má.
Quando o Mauro apareceu, fiz-lhe um sinal.
— Hoje não.
Ele parou.
— Está bem.
Pegou na guitarra.
— Espera.
Virou-se.
— Vou ficar mal hoje.
— E?
— E não preciso de plateia.
Pousou a guitarra.
— Achas mesmo que venho aqui porque estás bonito?
Fiquei calado.
— Quer dizer, ajuda.
— Idiota.
— Posso ficar?
Assenti.
Ficou.
Nesse dia viu-me vomitar. Viu-me ficar com as mãos a tremer. Viu-me perder a paciência com uma enfermeira e pedir-lhe desculpa cinco minutos depois.
Quando ficámos sozinhos, disse:
— Estou farto disto.
— Eu sei.
— Não sabes.
— Tens razão.
Aquilo desarmou-me.
Mauro ficou algum tempo calado.
— A minha mãe fez quimioterapia aqui.
Olhei para ele.
— Aqui?
Assentiu.
— Durante quase um ano.
— Está bem?
Ele abanou a cabeça.
— Morreu há seis anos.
— Desculpa.
Passou os dedos pelas cordas da guitarra.
— Havia um voluntário que tocava para ela. Dizia que não lhe tirava o medo, mas durante três minutos conseguia pensar noutra coisa. Depois de ela morrer, achei que talvez pudesse fazer o mesmo por alguém.
Fiquei calado.
Até aí tinha assumido que Mauro sorria porque a vida ainda não lhe tinha dado razões suficientes para não sorrir.
Afinal estava errado.
O primeiro beijo aconteceu três semanas depois.
Fora do hospital.
As coisas começaram assim.
Sem conversa sobre o que éramos. Sem promessas.
Ele aparecia. Eu deixava.
Depois comecei a querer que aparecesse.
Havia uma diferença.
…
Meses depois, o médico disse:
— Os exames estão muito bons.
Depois apareceu a palavra.
Remissão.
— Tens a certeza?
— Sim.
— A certeza médica ou a certeza de “vamos acompanhar”?
Sorriu.
— As duas.
A minha mãe começou imediatamente a chorar. O meu pai apertou a mão ao médico durante tempo a mais.
Eu fiquei sentado.
— Então agora posso voltar a voar?
A minha mãe virou-se para mim.
— Gustavo!
— O quê?
Vieram mais exames, avaliações e muita papelada.
Aparentemente vencer um linfoma era mais rápido do que convencer a medicina aeronáutica de que eu podia voltar a trabalhar.
Quando finalmente tive autorização, liguei ao Mauro.
— Sábado estás livre?
— Depende.
— Vou voltar a voar.
Silêncio.
— A sério?
— Sim. E vais comigo.
— Isso foi um convite ou uma ordem?
— Um convite mal formulado.
— Nesse caso, sim.
…
O primeiro voo foi Lisboa-Madrid.
Já tinha feito aquela rota dezenas de vezes. Nunca me tinha parecido importante.
Naquele dia parecia.
Sentei-me no cockpit, ajustei o banco e coloquei o headset.
O copiloto olhou para mim.
— Tudo bem?
— Sim.
Desta vez era verdade.
Quando descolámos, não tive nenhuma revelação extraordinária. Não chorei. Não pensei no sentido da vida.
Pensei:
Porra, tinha saudades disto.
Depois de aterrarmos, tinha uma mensagem.
Admito que isto do avião é ligeiramente mais impressionante do que a guitarra.
Ligeiramente?
Não te entusiasmes.
Onde estás?
À espera do homem pouco viajado que nunca me levou à Amadora.
Ri-me.
— Alguma coisa boa? — perguntou o copiloto.
Guardei o telemóvel.
— Sim. Muito boa.
…
— Avô?
A pista desapareceu.
Piscar os olhos foi suficiente para Madrid ficar a mais de quarenta anos de distância.
À minha frente, Leonor segurava uma fotografia. Tomás estava sentado no chão com a caixa das bolachas entre as pernas.
— Adormeceste? — perguntou ele.
— Não. Estava a lembrar-me.
Leonor olhou para a fotografia.
Nela eu estava de uniforme, mais magro do que devia, o cabelo ainda curto. Ao meu lado estava o Mauro, com um braço à volta da minha cintura.
— Então foi assim que conheceste o avô Mauro?
— Mais ou menos.
— Como assim? Contaste durante meia hora.
— Histórias antigas precisam de edição.
Da cozinha ouvi:
— PRINCIPALMENTE QUANDO O TEU AVÔ AS CONTA!
Revirei os olhos.
Mauro apareceu à porta com um prato de bolo. O cabelo já quase não existia, facto que eu fazia questão de lhe recordar regularmente.
— Está outra vez a contar a versão em que era muito bonito e misterioso?
— Eu era muito bonito.
— Misterioso é discutível.
Leonor riu-se.
— O avô disse que não acreditava no Universo.
— Não acreditava em nada que não tivesse manual de instruções — respondeu Mauro.
— Continuo a preferir coisas que funcionam.
— Casaste comigo.
— Exatamente. Aprendi com o erro.
Passou por mim e agarrei-lhe a mão antes que se afastasse.
Nem pensei.
Quarenta anos davam para criar alguns hábitos.
Tomás apontou para nós.
— Mas foi mesmo o Universo que vos juntou?
Olhei para a fotografia.
— Não sei.
Ele pareceu desapontado.
— Ficar doente não foi uma coisa boa — continuei. — Foi uma merda.
— Gustavo — repreendeu Mauro.
— Eles já ouviram pior.
Leonor confirmou com a cabeça.
— Vês?
Sorri.
— Mas às vezes uma coisa má leva-nos a um lugar onde também acontece alguma coisa boa. Isso não torna a primeira coisa necessária.
Leonor ergueu a fotografia.
— Tipo o avô Mauro?
Olhei para ele.
Setenta e muitos anos. Óculos. Rugas. A mão ainda agarrada à minha.
— Principalmente o avô Mauro.
Mauro sorriu.
— Estás outra vez a dizer às crianças que o Universo me mandou?
— Talvez tenha mandado.
— Gustavo, eu fui de metro.
As crianças começaram a rir.
Eu também.
Não sei se foi o Universo. Nunca gostei de explicações que não cabem numa checklist.
Só sei que, no pior período da minha vida, apareceu um homem com uma guitarra, uma t-shirt ridícula e uma teoria absurda sobre como tudo se alinhava no momento certo.
Quarenta anos depois, continuava ao meu lado.
E para mim, chegava.