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Dá-me 3 palavras

Chá para dois

Uma noite tranquila, uma caneca partida e uma chegada inesperada.

Esta história nasceu de um desafio.

Na minha rubrica do Instagram, “Dá-me 3 palavras e eu devolvo-te uma história”, deram-me três palavras: chá, pensamento e noite. Esta foi a história que nasceu delas.

Aos vinte e oito anos, Vanessa tinha aprendido a gostar das suas noites.

Não todas.

Havia noites em que a rotina lhe parecia pequena demais. Chá, livro, algumas mensagens no grupo das amigas, talvez um episódio de uma série e cama. Não era infeliz, longe disso. Gostava da vida que tinha. Mas, de vez em quando, surgia-lhe aquela sensação difícil de explicar de que talvez houvesse espaço para mais qualquer coisa.

Mas naquela noite não.

Naquela noite, Vanessa estava exatamente onde queria estar.

Lá fora, a chuva batia devagar nas janelas e o vento empurrava folhas castanhas pela rua. Dentro de casa, só havia luz suficiente para tornar a sala confortável: o candeeiro junto ao sofá, duas velas acesas em cima da estante e as pequenas luzes que Vanessa se recusava a guardar depois do Natal porque, segundo ela, dezembro não tinha exclusividade sobre coisas bonitas.

Tinha as pernas encolhidas debaixo de uma manta cor-de-rosa, meias grossas e uma caneca antiga entre as mãos.

Encontrara-a meses antes numa feira de velharias.

Era branca, com pequenas flores azuis e uma asa ligeiramente torta.

Custara dois euros.

Vanessa gostava dela como se fosse uma relíquia de família.

O chá era de maçã e canela.

O livro aberto sobre as pernas chamava-se Maria, ainda e Vanessa estava há vinte minutos a negociar consigo própria.

Só mais um capítulo.

Depois ia dormir.

Só mais um.

Depois desligava mesmo a luz.

Quando virou outra página, o telemóvel começou a tocar em cima da mesa.

Vanessa olhou para o ecrã.

Número desconhecido.

Ignorou.

Voltou ao livro.

O telemóvel parou.

Cinco segundos depois, voltou a tocar.

— Quem é que liga duas vezes às dez da noite?

Pousou a caneca e pegou no telefone.

— Estou?

— Vanessa?

Endireitou-se.

— Sim.

Houve uma pequena pausa.

Depois uma voz de mulher, demasiado entusiasmada para aquela hora, disse:

— É teu. O teu filho chegou e está pronto para te receber.

Vanessa levantou-se tão depressa que a manta ficou presa nos pés.

A mão bateu na caneca.

Ouviu primeiro o impacto.

Depois o estalar da porcelana.

O chá espalhou-se pelo tapete.

— O meu quê?

Do outro lado, alguém começou a rir.

Vanessa reconheceu finalmente a voz.

— Carolina?

— Estava à espera de que percebesses.

— Tu disseste “o teu filho”!

— E tecnicamente não menti.

Vanessa levou a mão à boca.

— O Vasco?

— O Vasco.

Ficou imóvel.

Durante um segundo, a sala desapareceu.

Não havia chá no tapete.

Não havia caneca partida.

Não havia chuva.

— Está aqui?

— Chegou há cerca de uma hora. A família de acolhimento trouxe-o hoje. A papelada fica para amanhã, mas, se ainda o quiseres, ele pode ir contigo esta noite.

— Estou a caminho.

— Vanessa, espera. Não precisas de—

Ela já tinha desligado.

Olhou para o chão.

Depois para os pedaços da sua caneca preferida.

— Desculpa.

Não sabia se estava a pedir desculpa à caneca ou ao tapete.

Pegou no casaco que estava pendurado junto à entrada, enfiou as primeiras sapatilhas que encontrou e saiu.

Só percebeu no elevador que tinha uma meia cor-de-rosa e outra cinzenta.

Não voltou atrás.

…

Vanessa tinha conhecido Vasco através de uma fotografia.

Durante meses dissera a toda a gente que ainda não sabia se queria assumir aquela responsabilidade.

Gostava demasiado da sua liberdade.

Do apartamento arrumado.

De poder passar um sábado inteiro fora sem dar satisfações a ninguém.

De viajar.

De dormir até ao meio-dia.

E depois viu uma publicação do centro de adoção.

Ele olhava para a câmara com uma expressão séria, quase desconfiada, e qualquer coisa naquele olhar ficou com ela.

Chamava-se Vasco.

Tinha cerca de dois anos.

E precisava de uma casa.

Vanessa guardou a fotografia.

Depois voltou a vê-la.

Depois mostrou-a à melhor amiga.

Depois preencheu o formulário “só para saber como funcionava”.

Duas entrevistas e uma visita a casa mais tarde, continuava a garantir que não estava emocionalmente envolvida.

Estava.

Profundamente.

Só havia um problema.

Vasco ainda não estava disponível. Faltavam algumas avaliações, documentos e uma quantidade absurda de burocracia.

Vanessa esperou.

Duas semanas.

Depois três.

Tentou não criar expectativas.

Falhou.

…

Quando chegou ao centro, Carolina estava à porta.

— Vieste mesmo de pijama?

Vanessa olhou para baixo.

As calças largas tinham pequenos morangos estampados.

— Não tive tempo.

— Tiveste tempo de pôr um casaco.

— Era socialmente obrigatório.

Carolina abanou a cabeça.

— Anda.

Vanessa seguiu-a pelo corredor.

O coração batia-lhe demasiado depressa.

— Ele está bem?

— Está.

— Está assustado?

— Um bocadinho.

— E se ele não gostar de mim?

Carolina parou.

— Vanessa.

— O quê?

— Respira.

— Estou a respirar.

— Não parece.

Continuaram.

Quando chegaram à sala, Carolina abriu a porta.

Vanessa entrou.

E viu-o.

Era mais pequeno do que parecia nas fotografias.

Dourado, orelhas longas, patas ligeiramente grandes para o corpo, nariz rosado.

E a mancha.

Aquela mancha castanha em redor do olho que lhe dava um ar permanentemente desconfiado.

Vasco estava junto a uma cadeira.

Olhou para Vanessa.

Vanessa olhou para ele.

— Olá.

Nada.

Ajoelhou-se.

— Eu sou a Vanessa.

Vasco virou a cabeça.

— Disseram-me que eras meu filho.

Carolina tentou não rir.

O cão levantou-se.

Vanessa abriu imediatamente os braços.

Vasco passou por ela.

Diretamente.

Foi cheirar uma mochila no outro lado da sala.

Vanessa ficou ajoelhada.

— Bem.

Carolina riu-se.

— Grande momento.

— Na minha cabeça foi diferente.

— Dá-lhe tempo.

Vanessa sentou-se no chão.

Não o chamou outra vez.

Ficou apenas ali enquanto Carolina lhe explicava horários, alimentação, adaptação, passeios e uma quantidade absurda de outras coisas que Vanessa já tinha lido três vezes nas últimas semanas.

Vasco continuava a explorar a sala.

Até que Vanessa sentiu alguma coisa tocar-lhe no tornozelo.

Baixou os olhos.

Ele tinha-se aproximado.

Não saltou.

Não abanou freneticamente a cauda.

Encostou simplesmente o corpo à perna dela.

Vanessa deixou de ouvir Carolina.

Desceu lentamente a mão.

Fez-lhe uma festa atrás da orelha.

Vasco fechou os olhos.

Foi tudo.

— Está bem — murmurou Vanessa. — Acho que podemos ficar um com o outro.

…

Descobriu rapidamente que levar um cão para casa não era tão bonito como nos vídeos da internet.

Primeiro, Vasco recusou-se a entrar no elevador.

Vanessa tentou convencer.

Tentou chamar.

Tentou entrar e sair várias vezes para demonstrar que não se tratava de uma máquina mortal.

Vasco manteve as quatro patas firmemente plantadas no chão.

— Moramos no quarto andar.

Vasco olhou para ela.

— Estou só a dizer.

Acabaram por subir pelas escadas.

No segundo andar, Vanessa já amaldiçoava a mala cheia de coisas que Carolina lhe tinha oferecido.

No terceiro, Vasco tentou comer uma folha seca que alguém tinha trazido presa no sapato.

No quarto, parou para cheirar demoradamente a porta da vizinha.

— Esta é a nossa.

Vasco ignorou-a.

— Vasco.

Continuou.

— Filho.

Virou-se.

Vanessa estreitou os olhos.

— Ah. Portanto é assim.

Dentro de casa, começou a segunda fase.

Vasco bebeu água e deixou metade no chão.

Cheirou todas as divisões.

Ladrou para o reflexo no forno.

Encontrou uma meia debaixo da cama que Vanessa jurava ter perdido há meses.

E fez xixi junto à porta da varanda.

Vanessa ficou a olhar para ele.

Vasco ficou a olhar para ela.

— Não vou mentir. Estamos a começar mal.

A cauda mexeu-se.

— Não uses charme.

Mexeu-se outra vez.

— Isto não vai funcionar sempre.

Funcionou imediatamente.

…

Já passava da meia-noite quando Vanessa conseguiu finalmente sentar-se.

Tinha limpado o chá derramado, apanhado os restos da caneca, preparado a cama de Vasco e feito outro chá.

Desta vez usara uma caneca banal.

Não confiava suficientemente naquela noite para arriscar outra das boas.

Pegou no livro que continuava aberto no sofá.

— Onde é que eu ia?

Vasco estava deitado no chão, ao lado da cama nova que Vanessa comprara especialmente para ele.

Não em cima dela.

Ao lado.

— Aquilo custou quarenta euros.

Uma orelha mexeu-se.

— Só para ficares esclarecido.

Tentou ler.

Um parágrafo.

Dois.

Na terceira vez que percebeu que não fazia ideia do que acabara de ler, fechou o livro.

Ficou a olhar para Vasco.

Respirava devagar.

Parecia finalmente tranquilo.

Vanessa puxou a manta sobre as pernas.

Talvez estivesse apenas cansada, mas voltou-lhe à cabeça um pensamento que a acompanhava havia meses.

Aos vinte e oito anos, as perguntas tinham começado a mudar.

Já não era:

“Quando acabas o curso?”

“Já arranjaste trabalho?”

Agora era:

“E namorados?”

“Não pensas em casar?”

“Não queres ter filhos?”

As amigas também avançavam.

Casamentos.

Casas compradas a dois.

Ecografias enviadas para grupos de WhatsApp.

Vanessa ficava verdadeiramente feliz por elas.

E depois regressava a casa.

Ao seu sofá.

Aos seus livros.

Às suas velas.

Às suas noites de chá.

E perguntava-se se estava atrasada.

O problema era que não sabia relativamente a quê.

Gostava da vida que tinha.

Gostava mesmo.

Só havia momentos em que se perguntava se gostar tanto daquela vida significava que queria que ela continuasse exatamente igual.

Baixou os olhos.

Vasco levantara-se.

Caminhou até ela.

— O que foi?

Ele ficou junto ao sofá.

— Queres subir?

Vasco não se mexeu.

Vanessa pousou o chá na mesa e sentou-se no chão.

— Está bem. Eu desço.

Ele aproximou-se devagar.

Cheirou-lhe a mão.

Depois deu uma volta sobre si próprio e deitou-se junto às pernas dela.

A cabeça pousou-lhe no colo.

Vanessa ficou imóvel.

Como se qualquer movimento pudesse desfazer aquilo.

Passou-lhe lentamente os dedos pelo pelo dourado.

— Então é isto?

Vasco suspirou.

— Vou interpretar como um sim.

Lá fora, continuava a chover.

A casa parecia diferente.

Havia a respiração de Vasco junto às pernas dela.

Uma tigela nova na cozinha.

Uma trela junto à porta.

Pelos dourados que, Vanessa suspeitava, em breve estariam em todo o lado.

Em poucas horas, alguém tinha chegado e começado a ocupar espaço na vida dela.

Vanessa sorriu.

Durante meses tinha pensado demasiado no futuro.

No que devia querer.

No que devia acontecer a seguir.

No ritmo a que a vida parecia avançar para toda a gente.

Vasco ressonou.

Vanessa olhou para ele.

— Tu não tens pensamento nenhum nessa cabeça, pois não?

A cauda bateu uma vez no chão.

— Invejo-te.

Pegou na caneca e bebeu um gole.

O chá já estava morno.

Não se importou.

Naquela noite, não precisava de descobrir como seria a sua vida aos trinta, aos quarenta ou aos cinquenta.

Não precisava de saber quem ainda iria aparecer.

Nem o que iria mudar.

Por enquanto, bastava-lhe saber quem queria encontrar na manhã seguinte.

Olhou para Vasco.

— Amanhã temos de falar sobre o xixi na varanda.

Ele não abriu os olhos.

— E sobre a cama de quarenta euros.

Nada.

Vanessa voltou a abrir Maria, ainda.

— E nem penses em comer este livro. É importante.

Vasco levantou a cabeça durante um segundo.

Depois voltou a pousá-la sobre a perna dela.

Vanessa sorriu.

Lá fora, o vento arrastava folhas pela rua.

Dentro de casa, o chá arrefecia.

E, pela primeira vez em muito tempo, Vanessa não pensou naquilo que faltava à sua vida.

Estava demasiado ocupada a fazer festas ao que acabara de chegar.