Max, a Besta Lendária
Numa floresta encantada, um Fae encontra uma criatura impossível. O problema é que a história não acaba como ele imaginava.
Na minha rubrica do Instagram, “Dá-me 3 palavras e eu devolvo-te uma história”, deram-me três palavras: fantasia, conquistador e heróis. Esta foi a história que nasceu delas.
A floresta nunca ficava verdadeiramente em silêncio.
Mesmo quando o vento parava e as copas das árvores deixavam de se agitar, havia sempre alguma coisa a mover-se na escuridão. O estalar de um ramo. O bater de asas demasiado longe para se perceber a que criatura pertenciam. O murmúrio da água a correr por baixo das raízes antigas.
E, naquela noite, havia outra coisa.
Um som que ele nunca tinha ouvido.
Parou.
A lua filtrava-se entre os ramos em fios prateados, iluminando o caminho apenas o suficiente para distinguir os fetos das sombras. Pequenos pontos azulados flutuavam entre os troncos, espíritos de luz que costumavam fugir quando alguém se aproximava.
Naquela noite, porém, também eles pareciam inquietos.
O Fae levou a mão à espada.
Não precisava dela para se defender. Nunca precisara realmente.
Em quinhentos anos de vida, atravessara guerras entre reinos, vira feiticeiros destruírem cidades por vingança e enfrentara criaturas cujos nomes os humanos tinham transformado em histórias para assustar crianças.
Conhecia aquela floresta.
Conhecia cada riacho, cada clareira e quase todas as criaturas que se escondiam quando a noite chegava.
Ou pelo menos pensava conhecer.
O som voltou.
Um gemido grave.
Baixo.
Doloroso.
Ele abandonou o caminho.
Os ramos agarraram-lhe a capa enquanto avançava entre as árvores. O ar tornou-se mais frio e o cheiro da terra molhada deu lugar a qualquer coisa metálica.
Sangue.
Parou novamente.
Desta vez, desembainhou a espada.
— Quem anda aí?
Nenhuma resposta.
Seria absurdo esperar uma.
Mesmo assim, os velhos hábitos morriam devagar.
Seguiu o cheiro até chegar a uma zona da floresta onde as árvores cresciam tão juntas que até a lua parecia ter desistido de entrar.
O som vinha dali.
Afastou algumas folhas.
E viu-a.
Durante alguns segundos, não se mexeu.
A criatura estava caída junto às raízes de um carvalho gigantesco.
Era maior do que qualquer animal que já tivesse visto. O corpo estava coberto por pelo dourado, embora parte dele estivesse escurecido pela lama. Duas asas enormes nasciam-lhe das costas, dobradas de uma forma pouco natural contra o chão.
Tinha patas largas.
Garras.
E dentes.
Muitos dentes.
Uma armadilha de ferro prendia-lhe uma das patas traseiras.
O Fae aproximou-se um passo.
A criatura ergueu a cabeça.
Dois olhos escuros encontraram os dele.
Rosnou.
Ele parou.
— Está bem.
Outro rosnado.
— Não precisas de ser desagradável.
A besta mostrou os dentes.
— Claramente não estamos a começar bem.
Nunca tinha visto nada semelhante. Era uma criatura grandiosa.
E isso era dizer muito para alguém que já encontrara cavalos feitos de névoa, serpentes com escamas transparentes e uma mulher que se transformava num corvo sempre que alguém lhe fazia uma pergunta inconveniente.
A criatura voltou a puxar a pata.
O ferro apertou-se.
Um gemido escapou-lhe.
O Fae olhou para a armadilha.
Aquilo não pertencia à floresta.
As runas gravadas no metal eram humanas.
Caçadores.
Sentiu a raiva subir-lhe pelo peito.
Havia acordos antigos sobre aquelas terras. Até os homens mais estúpidos sabiam que certas fronteiras não deviam ser atravessadas.
Aproximou-se novamente.
A besta rosnou.
— Se quiseres continuar aí até alguém te transformar num tapete, tudo bem por mim.
O rosnado aumentou.
— Mas parece-me um desperdício.
Agachou-se a alguma distância.
A criatura observava todos os seus movimentos.
— Vou libertar-te.
Nada.
— Depois podes seguir a tua vida. Eu sigo a minha. Nunca nos voltamos a ver.
Os olhos continuaram fixos nele.
— É um excelente acordo.
A besta não pareceu convencida.
Ele suspirou.
Era isto que lhe faltava.
Depois de quinhentos anos a evitar mortes particularmente humilhantes, acabaria provavelmente devorado por uma criatura desconhecida porque, num impulso de bondade, decidira fazer de herói.
Afastou esse pensamento.
Herói.
Gostava da palavra.
Não admitiria a ninguém, obviamente.
Os heróis eram geralmente homens insuportáveis que precisavam de três bardos para contar a mesma batalha.
Ele não era assim.
Ainda assim...
Imaginou durante um instante a história.
O misterioso Fae que encontrara uma criatura lendária nas profundezas da floresta e, sem medo, enfrentara os seus dentes para a libertar.
Havia potencial.
Talvez uma canção.
Uma estátua parecia excessiva.
Mas aceitável.
— Muito bem — murmurou. — Vamos transformar isto numa história digna de ser contada.
Guardou a espada.
A criatura acompanhou o movimento.
Muito devagar, ele estendeu uma mão.
— Não me comas.
Os dentes apareceram novamente.
— Foi um pedido perfeitamente razoável.
Aproximou-se.
Um passo.
Depois outro.
A besta tentou levantar-se e a corrente presa à armadilha esticou-se.
O Fae parou imediatamente.
— Calma.
A criatura respirava depressa.
— Eu sei.
Não sabia.
Mas pareceu-lhe apropriado dizer.
Ajoelhou-se junto à pata presa.
Agora conseguia ver melhor as asas.
Eram magníficas.
As penas douradas tornavam-se mais escuras junto às pontas, quase negras. Uma delas estava coberta de pequenas folhas e lama.
A besta podia ser aterradora.
Mas também era extraordinariamente bonita.
— O que és tu?
Um rosnado baixo foi a única resposta.
— Certo. Guardamos as apresentações para depois.
Examinou a armadilha.
Ferro encantado.
Claro.
Um caçador comum não teria qualquer hipótese contra uma criatura daquelas.
Alguém sabia exatamente o que procurava.
Isso incomodou-o.
A floresta escondia segredos que nem ele conhecia.
Depois de quinhentos anos, era fácil começar a acreditar que já não havia nada capaz de o surpreender.
Aparentemente estava enganado.
Encostou dois dedos ao metal.
Uma luz dourada percorreu-lhe a mão.
As runas brilharam.
A armadilha resistiu.
— Não dificultes.
A criatura voltou a puxar a pata.
— E tu também não.
Concentrou-se.
A magia aqueceu-lhe os dedos.
Uma das runas apagou-se.
Depois outra.
O ferro estalou.
A armadilha abriu.
O Fae afastou-se imediatamente.
A criatura não se mexeu.
Ficou deitada.
Ele levantou-se.
— Pronto.
Nada.
— Estás livre.
A besta ergueu a cabeça.
Depois colocou uma pata no chão.
Outra.
Muito lentamente, levantou-se.
Era ainda maior do que ele imaginara.
Muito maior.
O Fae deu um passo atrás.
A criatura abriu as asas.
Ele deixou de respirar.
As enormes penas preencheram o espaço entre os troncos, afastando folhas e levantando pequenas partículas douradas do chão.
Era magnífica.
E absolutamente aterradora.
O Fae tentou não demonstrar qualquer uma dessas opiniões.
Endireitou os ombros.
Ajeitou a capa.
Sentiu uma satisfação bastante inconveniente.
Talvez tivesse mesmo feito algo digno de um herói.
A besta estava livre graças a ele.
Talvez aquilo fosse um sinal.
Talvez, depois de séculos a vaguear sozinho entre reinos, estivesse finalmente destinado a alguma coisa maior.
Um guardião de criaturas antigas.
Um conquistador de territórios desconhecidos.
O salvador de uma espécie que ninguém sabia existir.
O primeiro Fae a—
A criatura avançou na sua direção.
Ele parou.
— Certo.
Outro passo.
— Não precisamos de exagerar.
A cabeça da besta estava quase à altura do seu peito.
Os olhos fixaram-se nele.
A boca abriu-se.
Os dentes pareceram maiores agora.
Muito maiores.
A mão dele voltou lentamente para a espada.
— Seria bastante ingrato da tua parte.
A criatura aproximou-se.
Ele recuou.
Ela avançou.
— Eu acabei de te salvar.
Mais um passo.
— Há certas convenções sociais—
A besta abriu ainda mais a boca.
O Fae desembainhou a espada.
— Não me obrigues.
A criatura saltou.
Ele levantou a arma.
Fechou os olhos.
E alguma coisa quente e húmida atravessou-lhe a cara.
O Fae congelou.
Abriu um olho.
A criatura estava demasiado perto.
Antes que pudesse reagir, uma língua enorme passou-lhe pela bochecha.
— O quê?
Outra lambidela.
— Para.
A criatura apoiou as patas dianteiras nos ombros dele.
O peso atirou-o para trás.
— Sai!
Lambidela.
— Eu disse—
Outra.
— Isto não é comportamento digno de uma criatura lendária!
A besta soltou um som estranho.
Não era um rugido.
Nem um rosnado.
Era ritmado.
Quase como...
Ofegar.
Lambidela.
O Fae tentou afastar-lhe a cabeça.
— Já chega.
Mais uma.
— Eu percebi que estás agradecida.
A língua atingiu-lhe o nariz.
— Não.
Outra vez.
— Para!
O pelo dourado começou a parecer-lhe estranho.
Mais macio.
As asas agitavam-se à sua volta, mas já não ouvia penas.
O som parecia tecido.
O chão desapareceu debaixo dele.
A floresta começou a distorcer-se.
As árvores inclinaram-se.
A lua desapareceu.
— O que—
A criatura voltou a lamber-lhe a cara.
O seu tamanho mudou.
Ou talvez fosse ele.
O Fae tentou agarrar a espada.
Os dedos encontraram outra coisa.
Tecido.
Uma asa caiu-lhe sobre a cabeça.
Não.
Um cobertor.
Abriu os olhos.
Escuro.
Piscou.
Uma língua passou-lhe novamente pela cara.
— Max!
O cão ficou imóvel durante aproximadamente meio segundo.
Depois voltou ao ataque.
— Para!
Virou a cabeça, tentando fugir.
Max acompanhou o movimento com entusiasmo.
A besta lendária da floresta encantada tinha desaparecido.
No seu lugar estava um golden retriever de trinta quilos, com as duas patas em cima da cama, a cauda a bater violentamente contra a cómoda e uma expressão de absoluta urgência.
Ele puxou o cobertor para cima da cabeça.
— Não.
Max choramingou.
— Ainda é de noite.
Outro choramingo.
Estendeu uma mão à procura do telemóvel.
06:17.
— Isto é desumano.
Max latiu.
Uma vez.
Curto.
Objetivo.
O cão enfiou o focinho por baixo do cobertor.
— Max.
Lambidela.
— Eu estava numa floresta.
A cauda continuou a bater.
— Tinha quinhentos anos.
Max inclinou a cabeça.
— Era um Fae.
Nada.
— Sexy. Misterioso. Muito poderoso.
Max bocejou.
— Não precisas de ser ofensivo.
Sentou-se na cama.
O cão recuou imediatamente e correu até à porta do quarto.
Depois voltou.
Depois correu novamente para a porta.
— Já percebi.
Max deu uma pequena volta sobre si próprio.
— Precisas de ir à rua.
A palavra provocou uma reação imediata.
O cão saltou.
— Não devias conhecer essa palavra.
Max já estava no corredor.
Ele passou as mãos pela cara.
Ainda conseguia sentir as lambidelas.
Deixou-se cair novamente na almofada.
Durante alguns segundos tentou recuperar a sua fantasia.
As árvores.
As luzes azuis.
A criatura presa.
A magia.
Nada.
Só conseguia ouvir Max do lado de fora do quarto.
Um pequeno gemido.
Depois outro.
— Estou a ir!
Silêncio.
Ele levantou-se.
Vestiu umas calças de fato de treino e uma camisola enquanto Max o observava como se cada segundo fosse uma afronta pessoal.
— Sabes que no meu sonho eu te salvei?
A cauda abanou.
— Podias demonstrar alguma gratidão.
Max apanhou uma meia do chão.
— Larga.
Correu.
— Max.
O cão atravessou o corredor.
— Não faças isso.
Desapareceu na sala.
— Eu sou um conquistador de terras mágicas!
Max voltou a aparecer com a meia na boca.
— Um herói!
A cauda abanou com mais força.
— Um ser imortal com quinhentos anos de sabedoria!
Max deixou cair a meia.
Depois sentou-se junto à porta de casa.
Ele ficou a olhar para o cão.
O cão ficou a olhar para ele.
— E mesmo assim quem manda aqui és tu.
Max latiu.
— Pois.
Pegou na trela.
Max começou imediatamente a saltar junto à porta.
Suspirou.
Há cinco minutos era um herói lendário.
Agora ia apanhar cocó às seis e vinte da manhã.